Meus Textos





Apresentação
Acordei chorando, completamente desorientada, as lagrimas não me deixavam enxergar o quarto escuro e me roubavam a familiaridade que me traria aconchego naquele momento... Eu estava aterrorizada, tremia, completamente gelada, o que me assustou ainda mais, olhava ao redor, procurando sinais de que aquilo fora real... Mas, não, tudo fora um sonho, ou melhor, um pesadelo, terrível, mais ainda assim, só um pesadelo... Então sorri debilmente, pela minha estupidez, enquanto meu coração, respiração e temperatura voltavam ao normal... Você deve estar se perguntando qual fora o motivo de tanto medo... Irei lhe contar essa história, tão detalhadamente que poderás sentir no peito a dor dos acontecimentos, e as coisas pelas quais passei, e pelas quais, outros 
também passaram antes de mim..




 O conto dos Tripulantes

Era pra ser só um passeio de família, o primeiro em muitos anos... Mas foi muito mais do que isso algo que não dá para se descrever em palavras...


Capítulo 1

Estávamos a beira mar, em uma antiga casa quando assinamos o contrato que continha todas as leis e cláusulas da viagem. O que me chamou a atenção naquela folha de papel era o fato dela ter um caráter antigo e uma aparência envelhecida como papiro visto de longe, não cheguei a ler o contrato, nem ao menos vê-lo de perto, só me recordo de meus pais assinando a folha e depois sorrindo. Para eles, e para mim esse era um sonho realizado. Uma viagem em família que seria inesquecível.
O tempo mudava constantemente naquela região, ao anoitecer do primeiro dia as estrelas cobriam o céu como um manto iluminado, e a lua brilhava solenemente com o tom misterioso refletida no mar e deixando cinza a grama verde ao redor da casa. Adormeci ali olhando as estrelas pensando na viagem e nas novas experiências que ela poderia me proporcionar. Conhecer novos lugares fazer mais amizades, descansar... Quando acordei estava em meu pequeno quarto, e a luz do sol entrava através da cortina.
Ao amanhecer desse segundo dia quando sai pela manhã o sol era forte, enchia o céu com um brilho quente e branco que quase me cegou, porém quando desviei os olhos do céu claro pude ver a grama e as árvores ao meu redor, tive que piscar várias vezes para ter certeza do que estava vendo, pois a grama que ao anoitecer era verde e macia agora estava seca e sem vida arranhando meus pés, e as árvores sem nenhuma folha tinham um tom negro e seus galhos eram como raios sombrios contra o dia claro que começava.
Tivemos um dia cheio, pois a casa estava com muitos hóspedes que viajariam conosco. Ficamos dentro da casa comentando nossas expectativas sobre a viagem, então não tive oportunidade para falar do que havia visto lá fora, e na verdade parecia que não estavam atentos ao clima, pois ao anoitecer ninguém se surpreendeu ao ver a tempestade raivosa que durou a noite toda deixando tudo ensopado no dia seguinte.
Os dias foram passando e às vezes ao amanhecer continuávamos nos deparando com cenários diferentes e intimidadores, sem ao menos termos começado a viagem, mas ninguém se dava conta disso, pareciam cegos.
Havia algo acontecendo ali, algo medonho que não era justificado por uma lei plausível...
Mas havíamos assinado um contrato aceitando todas as imposições e regras ditadas por capitão respeitado por todos, alguém com passado desconexo que somente os seus chamados “tripulantes”- homens de sua confiança- conheciam.
E foi aí que o inferno começou...

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Capítulo 2

Um dia antes da viagem começar, eu estava em uma das salas da antiga casa feita para o descanso e a leitura. Era cheia de grandes e confortáveis poltronas, com uma grade grande janela que nos dava uma bela e assustadora vista do mar, e de suas ondas quebrando nas pedras e rochas lá em baixo. Estavam conosco na sala alguns tripulantes conversando entre si, enquanto um pequeno garoto olhava-os temeroso e desconfiado, havia também uma mulher grávida nos últimos meses de gestação que se distraída com uma revista alisando a volumosa barriga.
Estávamos perfeitamente tranquilos nos distraindo com bobagens quando o capitão entrou na sala com dois homens ao seu lado. Imediatamente todos ficaram paralisados observando o homem obscuro que acabara de entrar. Sempre que eu olhava aquele rosto sério e endurecido e para aqueles olhos escuros, eu sempre procurava uma alma sem saber se aquele homem tinha realmente uma. Em sua presença todos os corações da sala pararam de bater por alguns instantes depois recomeçaram a bater fortemente como se para tornar o alvo mais claro, como uma isca.
Assim que percebi esses detalhes um sentimento pairou sobre todos na sala, não era medo, nem respeito pelo capitão, comandante do navio que contratamos, nem ao menos a tranquilidade que sentimos há poucos minutos, era um sentimento puro, pesado e muito estranho.
Então como uma nuvem invisível de fumaça a aceitação inundou a sala, eu não sabia de onde nem por que estava sentindo aquilo, mais era forte e sufocava. A aceitação de algo que estava prestes a acontecer, ardia como um chicote em meu peito esmagando minha vontade, eu queria gritar e lutar contra aquilo, não sabia bem o porque mais eu senti medo, e com esse medo senti que precisava de alguma forma me proteger, e ao mesmo tempo pensei em minha família, o rosto de cada um deles veio a mim como um sopro de desespero, vi a porta da sala aberta e queria trancá-la para que nenhum deles chegasse naquele momento, eu não queria que eles tivessem que participar daquilo, seja lá o que  fosse. A outra parte de uma mente que não estava voltada para o que eu sentia, percebeu que uma fila se formava na sala e ao mesmo tempo algumas pessoas pareciam diferentes, perdendo a aparência humana, ficando translúcidos como fantasmas. Pela minha visão periférica pude ver –não por vontade própria, pois eu realmente não queria olhar- exatamente por qual motivo cada um deles havia morrido, era medonho...
Ver aqueles rostos deformados pelo inchaço como se tivessem passado anos no fundo do mar, com as roupas pingando água salgada. Outros com cortes e ferimentos abertos e cheios de sangue que significavam eras de tortura. Meu Deus, o que eu estava fazendo ali no meio daquelas pessoas?!
Enquanto isso a fila andava em direção a uma janela, e contra toda lógica meus pés seguiam a mesma direção eu estava pálida e gélida de medo não conseguia encontrar em mim o desejo fervoroso que queria sentir para gritar, aliás, atmosfera da sala estava assim, cheia de gritos de horror silênciosos, vistos somente nos olhos de cada pessoa viva ou fantasma que seguia para a janela, mas ao invés disso a pura aceitação era a única coisa que podíamos sentir. Quando o primeiro homem fantasma chegou à janela o capitão e os dois homens inescrupulosamente sorriam e falavam para que todos ouvissem qual fora o motivo de sua morte, como se para eles aquilo não passasse de uma piada. Quando chegou a janela o homem completamente aterrorizado olhou para nós e o capitão, e então como se tivesse aceitado novamente um destino que ninguém conhecia, ele se jogou.
Quando cheguei à janela pude ver a tempestade, olhei para baixo esperando ver o chão de pedras e me deparei com um oceano cinza, suas ondas baixas tinham som de lamento, do medo puro e silencioso, e sua água tinha cheiro de aceitação, e foi ficando mais forte enquanto eu me aproximava dela, - enquanto eu fazia comparações ou tentava entender o que acontecia os meus pés me levaram para a janela e para fora dela me jogando no mar...

Capítulo 3

Enquanto eu fazia comparações ou tentava entender o que acontecia os meus pés me levaram para a janela e para fora dela me jogando no mar - enquanto eu caía na água a lembrança de minha família veio novamente como a última brisa de minha vida... Aqueles que eu amava, eu não poderia mais ficar com eles, senti-los, abraçá-los, pois minha vida injustamente e sem explicações estava chegando ao fim. A água tinha gosto de perda, ela infiltrou em meu corpo o sugando e o transformando em algo leve, pálido e vazio, era como se eu não tivesse mais a proteção de meu corpo, e eu na verdade não tinha...
Eu achava que depois da morte não sentiria mais nada, mais o sentimento de perda me esmagava, pesava de uma forma que era quase tangível, principalmente quando eu lembrava de minha família, dos que eu amava, quando eu pensava nas muitas coisas que queria ter tido, nos sonhos que deixei em branco, nos planos...
Não sei quanto tempo passei pensando na morte, alias o tempo parecia algo completamente desconectado de mim, eu não conseguia vê-lo passar.
Até que o massacre e a tortura aconteceram pela primeira vez. Eu ainda estava nas pedras onde havia caído, com as ondas do mar batendo em meus pés, enquanto pensava e tentava encontrar o motivo de tudo aquilo, fui puxada, como se um buraco negro se abrisse de forma invisível e me sugasse para dentro dele, me levando para uma dimensão de dor e sofrimento. Este foi o primeiro momento depois de minha morte em que pude me sentir. Sentir meu corpo que pesava pela gravidade, e que estava agitado com a energia ao seu redor. Era uma floresta, seu chão era coberto por uma grama verde suja, em alguns pontos coberto por uma lama negra e em outros avermelhada, com árvores de um verde vivo, mas que estavam cobertas por uma planta que parecia uma erva daninha que se enrolava e embaraçava nos galhos deixando a aparência de uma grande teia de aranha marrom-acinzentado sobre as folhas.
Estavam todos ali, o capitão, seus tripulantes, e todas as novas almas perdidas que estiveram na sala, confusas olhando de um lado pro outro.
Então o capitão se levantou de sua glamorosa cadeira e com o mesmo sorriso cruel e sarcástico com o qual nos fez pular para a morte, ele abriu os braços como se tivesse nos acolhendo e começou o seu breve discurso: “Bem vindos! Todos os mortos – ou nem tanto assim. Bom... sem mais explicações. Que comece a iniciação.” Ditas essas palavras me senti como uma marionete, presa por cordões condenada a viver e aceitar tudo que fora designado a mim por aquele homem sem alma, ou por uma força maior ao redor dele. Todos os tripulantes eram homens feridos com roupas rasgadas longe de parecer com o belo uniforme que vimos na casa no ultimo dia antes da viagem. Somente nós os “iniciados”- como o capitão havia nos chamado- é que ainda estávamos com nossas roupas em perfeita ordem pingando água salgada.
Então o ritual começou. Os tripulantes sorriam, não era apenas uma risada, eram gargalhadas loucas, misturadas com gritos aterrorizantes. Então uma dor escaldante nos tomou e todos nós caímos sem defesas, sem ter como fugir. Presos, como marionetes, meu corpo estava cheio de espinhos que apertavam e se enrolavam em mim como uma planta viva, a dor aumentava, e depois ainda se duplicou, ficando cada vez mais forte, eu rolava no chão, tudo que eu sentia era dor, tudo que eu pensava era na dor, tudo que eu olhava era dor, todos estavam sofrendo e gritando. A dor e o aperto dos espinhos ficaram insuportáveis e foi assim que tudo escureceu.
Meu ser era só lembrança como pensamentos vagos de um sonho completamente real.
Lembranças: o livro, o capitão, a fila, a janela... e o farol não me lembrava dele, mas sim, ao lado da casa havia um farol um ponto seguro para os navegantes... Mais lembranças: água salgada, ondas baixadas com cheiro de aceitação, a perda, o vazio, e finalmente a dor, a pura dor e enfim a escuridão...
Quando abri os olhos, estava em um quarto e a cama balançava lentamente, olhei pela janela, e o sol forte não me tocou, eu não conseguia senti-lo, e nem ao meu corpo, eu era novamente um ser vazio e cheio de sentimentos e pensamentos movidos pela perda e cheio de aceitação. As ondas lá fora se espalhavam por toda parte agitadas e inofensivas. Estávamos num navio. A viagem havia começado...
Continua. Aguarde as próximas publicações...


Capitulo 4
Sai do quarto às pressas para saber onde estava e se as cenas em minha cabeça eram reais. Para minha surpresa todos aqueles que contrataram a viagem estavam ali, inclusive os iniciados vagavam pelo navio de um lado pro outro como em qualquer dia normal. Ao observar, percebi que eles caminhavam, mas seus pés não tocavam o chão de madeira do convés. Era como se tivesse um tipo de energia em baixo deles que os mantinha conectados da gravidade, mas sem se deixar prender por ela. Foi então que olhei para meus pés, vi que eles também flutuavam milímetros acima do chão. Então as cenas em minha cabeça eram reais, olhando para o meu reflexo nas ondas procurei as marcas deixadas pelo ritual, mas não havia nada só uma pequena dor que não tinha origem, mas meu corpo estava translúcido e pálido. Eu não conseguia entender...
Fiquei pasma ao perceber que ninguém além das pessoas que estavam na sala, percebia o que estava acontecendo, pois andavam entre nós como se nada tivesse acontecendo. Como se nosso corpo não estivesse translúcido, como se pudessem sentir nossa pele quando nos tocavam. Mas porque tudo isso parecia vazio? Por que nada daquilo me parecia familiar como já fora um dia? Eu estava enlouquecendo! Não aguentava mais aquela confusão de sentimentos que não faziam sentido algum eu não conseguia juntar as imagens em minha memória com o que estava vendo bem ali na minha frente.
Vi um dos tripulantes que passava por nós tranquilamente com um olhar sombrio e vitorioso. A fúria que se apoderou de mim era surreal, eu queria arranha-lo e esmaga-lo até que me explicasse o que estava acontecendo, mas quando tentei dar um passo em sua direção não consegui me mover, um peso enorme se apoderou de mim e fiquei ali olhando pra baixo incapaz de fazer alguma coisa. Tive que suportar a humilhação de aceitar minha condição fraca quando ele elevou o queixo e me olhou de cima com completo desprezo antes de virar as costas e ir embora. Fiquei ali presa até que minha raiva foi desaparecendo.
Teve um momento – pode-se dizer assim, pois eu não sabia se o tempo havia passado para os outros que não estavam na sala-, um momento em que vi meus pais pela primeira vez depois de tudo o que tinha acontecido, esperava que eles passassem por mim sem me ver, mas eles pararam em minha frente como se nada tivesse mudado aos olhos deles e perguntaram sobre a minha irmã, desejei que nada tivesse acontecido com ela, pois na hora que eles descobrissem que haviam perdido uma filha a dor já seria suficiente, mas alguns minutos depois ela chegou dizendo que havia se distraído na sala de jogos e perdeu o horário, o meu alívio ao ouvir sua explicação banal foi maior que o do meus pais, que não tinham ideia do perigo que os cercava. E então fui puxada novamente para o meio daquela tortura, e as cenas de horror recomeçaram, parecia um tipo de ritual, ou talvez um show de horrores, eu não sabia como chegava ao local da tortura quando ela começava mais eu sempre estava lá...
Era novamente a floresta de grama verde suja e cheia de arvores, mas algumas coisas haviam mudado dessa vez aparelhos de tortura surgiam de todos os lugares. Forcas desciam do alto das arvores, guilhotinas espalhadas pela grama subiam e desciam suas laminas pedindo por uma cabeça. Havia também uma hélice de ferro afiada que se balançava de um lodo pro outro como se ainda estivesse presa na fronte de um avião invisível designado pra uma terrível missão, em meio a tantos outros objetos de tortura que preferi não ver.
Então os gritos e gargalhadas começaram, alguns tentaram fugir, mas foram pegos pela nuvem invisível de aceitação que pesava em nossos ombros, ficamos todos no lugar enquanto nossa vontade novamente desaparecia. Lagrimas caíram de meus olhas e pela primeira vez depois de minha morte eu chorei deixando minha visão embaçada, a única coisa que pude ver foi o olhar assustado e familiar do pequeno garoto que vi na sala antes de pular para a morte, naquele dia ele olhou para o capitão desconfiado e temeroso, e agora seus olhos demonstravam que ele sabia que a morte estava chegando mais uma vez. Fomos levantados do chão por um galho de arvore que se enrolou em nossa cintura nos deixando frente a frente com a hélice de laminas afiadas que brilhavam assustadoramente no sol.
E a hélice foi ligada, girava rapidamente triturando os galhos em seu caminho vindo em nossa direção. Fechei os olhos cheios de lagrimas e me abracei pra resistir a dor insuportável, me prendendo unicamente na imagem de meus pais e minha irmã em minha memória. Ouvi os gritos de dor do garoto assustado e depois o silêncio. O som dos giros da hélice foi ficando mais alto, e então a escuridão me tomou. Quando acordei, meu ser era novamente tomado pelas memórias que agora eu sabia que eram reais e pelas reflexões, eu olhava as ondas e meus pensamentos voavam...
As primeiras conclusões que tirei depois de cair na água e me sentir daquela forma, eram de morte, as provas que eu tinha eram mais que suficientes, de outra forma como eu poderia passar por aquela tortura e morrer tantas vezes e ainda continuar sendo vista por minha família, Será que eu havia me tornado um fantasma e minha alma estava condenada a vagar entre o céu e a terra sempre passando por aquela tortura? Será que eu tinha opções como Morrer ou Voltar à vida?
Eu via as pessoas sendo cortadas, enforcadas, via rostos sofrendo transformados pela dor, feridos, cansados e infelizmente cheios de aceitação...
Fiquei aterrorizada, aquele lugar não nos deixava morrer em paz, ficávamos presos ali às vezes sentindo dores que não tinham origem, mas que eram fortes como ferimentos reais, passando por toda aquela tortura interminável como se tivéssemos cometido um pecado muito grande e estávamos no inferno pagando por isso. Como desejei morrer, ter uma morte tranquila e ir de encontro a Deus, como desejei que Ele me pegasse em seus braços e me consolasse, mas aquele lugar não deixava, eu precisava me libertar dali de toda aquela tortura.
E talvez eu não tivesse mais nada a perder, todos os meus sonhos foram pisoteados, agora eu tinha outro sonho, recuperar um pouco de vida que ainda restava dentro de mim,- se é que ela ainda existia- em meio aos devaneios dos meus pensamentos percebi pessoas ao meu lado  e uma delas me chamou a atenção , era a mulher grávida que vi na sala antes de pular para a morte ela estava com as mãos sob a barriga e acariciava a criança em seu seio com muito carinho, e de uma forma plenamente terna ela olhava a barriga e fazia suas declarações de amor ao bebê, ela dizia que quando ele chegasse tudo ficaria bem.. Ela falava com tanta certeza com tanto amor e carinho que não restava dúvidas em sua esperança de que aquele terror pelo qual ela passava acabaria...


Capitulo 5
Dias já se passaram e a viagem continua, já perdi a conta de quantas vezes  fui torturada naquelas sessões de horror, a dor e o medo fazem parte de mim agora, até o meu corpo físico já se acostumou com isso e com o tempo se fortaleceu.  Porém uma cena ainda me tira lagrimas, a imagem da mulher grávida que estava cheia de esperança por saber que tinha um motivo pelo qual lutar, eu a invejava. Tenho notado em seu rosto um brilho suave que aumenta dia após dia, deixando-a cada vez mais humana.
 O que me deixa ainda mais triste, pois continuo vagando pelo navio como o fantasma cinza que me tornei. Mas Aquela cena me desesperou de uma forma que me tirou o chão, eu gritava por dentro, num guincho de horror que me arrancaria da consciência e me levaria à insanidade completa eu não conseguia achar um motivo para ter esperanças, nem mesmo em minha família, pois eles ficariam bem sem mim, eu não tinha filhos nem ninguém que dependesse de mim para viver, eu não tinha nada, só os meus pensamentos e reflexões vazias que não me levavam a lugar algum, meu corpo doía de uma forma tão desesperada por solução, que eu poderia rasgar meu peito e arrancar tudo que ele protegia, em meio a gritos de pavor só para sair daquele inferno pessoal que me consumia...
Que escuridão é essa? Onde estou? Quem sou eu? Oh meu deus não me lembro de minha vida estou completamente perdido, sem saber quem sou. As lembranças de um homem, as suas memórias e principalmente seu nome são a sua honra e sua dignidade e agora não tenho nada disso, pelo menos sobraram os meus princípios. Eu estava zonzo, cansado. Abri os olhos me perguntando que lugar era aquele. Uma floresta negra pairava ao meu redor, meu corpo doía como se tivesse sido esmagado me levantei e caminhei um longo tempo pela escuridão. Até avistar uma luz que brilhava ao longe, percebi que também havia água por ali eu já podia ouvir o som das ondas.
Andei noite adentro, até me deparar com um céu limpo e sem nuvens que ainda clareava e um oceano aberto a minha frente. Pude ver o farol do outro lado da praia sua luz ainda piscava porem a casa permanecia escura e silenciosa será que havia alguém morando ali? Eu estou faminto, morrendo de fome, não sei a quanto tempo estive desmaiado?
Eu estava exausto, precisava descansar um pouco então resolvi voltar para o conforto da grama em baixo das arvores e tirar um cochilo antes de enfrentar o desconhecido naquela casa do farol, que me pareceu sombrio e perigoso mesmo na luz do sol. Me deitei sobre a sombra de uma arvore e me deixei levar pelo cansaço...
“uma pequena menina chorava nas sombras, me levantei e tentei encontra-la, ela estava em pé na praia olhando pro mar. Tentei alcança-la, porem quanto mais eu andava em sua direção, mais ela me parecia distante. Eu quase podia ouvir seus pensamentos através das lagrimas que caiam de seu rosto, e das caretas de dor e horror que ela fazia. Suas mãos arranhavam seu peito como se quisesse arrancar o próprio coração para não mais sofrer. Nesse momento foi como se algo me puxasse e me levasse até ela, tentei segurar suas mãos  mas seu corpo de fantasma não permitia. A pequena menina cinza estava com os pés descalços flutuando acima do chão e as ondas geladas banhavam sua pele, suas roupas estavam em farrapos e pareciam molhadas, tentei inutilmente toca-la, tira-la dali, mas em sua tristeza e desespero ela mal percebia. Gostaria de abraça-la mas seu corpo de fantasma não permitia, então disse-lhe algumas palavras na esperança de que ela me ouvisse:
- Não tenha medo, não chore pequena menina, você não esta mais sozinha e não a deixarei sofrer.
Quando ela abriu os olhos, não pareceu ter me ouvido, mas ela levantou o rosto e sorriu. Um sorriso débil e desesperado de menina, e saiu correndo em direção ao mar e em seu desespero gritava:
- Um motivo para lutar uma esperança para viver! É tudo o que eu peço.
Tentei ir atrás dela e impedi-la, mas ao entrar nas ondas geladas do mar, fui puxado de volta pra longe dela e com o frio das ondas acordei.”
Acordei procurando a bela menina cinza, mas ela não estava lá, tudo não passava de um sonho. Um sonho tão real, meus pés estavam gelados como se eu tivesse realmente entrado no mar. Quem era aquela pequena menina fantasma? Qual seria o motivo de tanto sofrimento? Contra o que ela precisava lutar? Lutar pra não sofrer não seria motivo o bastante? Mesmo sabendo que tudo aquilo fora um sonho eu não conseguia parar de me perguntar onde ela estaria agora. E por que ao lembrar de seu rosto, cenas e palavras enchem a minha mente? Algumas lembranças embaçadas e assustadoras, brinquedos espalhados no chão onde brincava, uma musica alta tocando, pessoas olhando e sorrindo, um banho de piscina, objetos afiados em uma floresta belamente verde, gritos pessoas conversando, muitos sorrisos... Eram minhas lembranças ainda misturadas, mas eram minhas, graças àquele pequeno rosto banhado de lagrimas comecei a me lembrar de minha antiga vida. Eu não era mais um homem tão desonrado afinal, poderia aos poucos me lembrar. Eu precisava vê-la de novo, precisava dizer que graças a ela eu sabia o meu nome, e agora tinha imagens e lembranças de minha vida que eu poderia compartilhar, e isso era muito importante pra mim.
Meu nome é Ezequiel, e eu prometo que vou encontra-la e protegê-la. Eu preciso dela aqui viva, preciso ver seu sorriso de novo e dessa vez poder toca-la, ouvir sua voz e fazer com que ela me ouça dizer para que se mantenha forte, que confie em mim. E então pedirei sua ajuda.
Quando estava quase surtando, me calei e não senti mais nada... Eu sabia que estava desesperada, mais não conseguia sentir, então, sorri debilmente percebendo o que acontecia... A aceitação era como uma anestesia que nos impulsionava a passar por tudo aquilo –tornava mais suportável- era como um escudo, um véu perverso de defesa que pairava sobre as nossas cabeças constantemente, e de certa forma nos sentíamos gratos por isso, e nos calávamos em nossa gratidão não contando a ninguém o que acontecia...
Eu não conseguia mais ficar ali olhando desejando estar naquela areia da praia que começava a aparecer no horizonte com o nascer do sol, enquanto o navio vagava calmamente sobre as ondas, se pressa de chegar. Meu desespero voltou aos poucos e até que abrindo meus olhos cheios de lagrimas sorrindo desesperadamente dessa incrível piada de mau gosto que minha vida havia se tornado. Gritei para o mar aberto pedindo um motivo pelo qual lutar uma esperança para viver. Então corri para a lateral do navio para me jogar no mar em um ultimo ato de desespero, mas meu corpo não tinha mais gravidade se eu quisesse poderia até caminhar por cima das ondas. Porem isso não me distraiu fechei os olhos e lentamente fui me afundando nas ondas do mar até que água chegasse aos meus ombros , e quando estava quase submersa sentindo o cheiro salgado ao meu redor, uma onda banhou meu rosto me trazendo um pensamento. Um nome Ezequiel.
  
Aguarde as próximas publicações...

11 comentários:

  1. Fiquei agora com vontade de saber, qual é esse pesadelo tão aterrorizante...

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  2. Gostei do primeiro capítulo. Aguardemos o próximo.
    A ilustração está fantástica.Há um mistério pairando sobre o oceano, aparentemente tranquilo, assim como no morro e na embarcação.

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  3. Ah, também gostei do novo visual do blog, mais moderno e leve. Parabéns meninos

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  4. muito legal eu li o primeiro capitulo espero ver o resto dessa historia

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  5. Como sempre criativa. Um texto que nos da vontade de continuar lendo. E uma curiosidade imensa para saber o desenrolar da história. Bjs.

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  6. Horripilantemente incrível. Adorei o terceiro capítulo. Continuo mais curiosa.

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    1. Doeu não é Evandra? O que será que aconteceu com o personagem neste ritual? O que virá depois.. kk Adorei o "horripilantemente incrivel" Obrigada..

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  7. Surreal, incrível criatividade. Aguardemos o próximo capítulo.

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    1. Obrigada aprendi com ótimos professores..kkk E obrigada pela propaganda varios alunos seus vieram me perguntar do blog e de como fazer para criar um, achei uma ótima ideia incentivar a nova geração a usar bem a internet. Conte comigo!

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  8. com certeza vocês já ouviram falar que nenhum homem é uma ilha, então nossa querida personagem não poderia continuar passando por tudo sozinha... Espero que gostem de Ezequiel.

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